8 de ago de 2011

Parte 12 - Na Ambulância

Escrito por Mayra Ghizoni.
Desceram do carro.  Ouvi os passos se distanciando do lugar onde eu me encontrava. Respirei fundo, apenas aguardando o momento em que abririam o porta-malas e me jogariam no meio do asfalto. Eu nem ia pedir muito, se me deixassem viva no calor de 39,9° C eu nem ia reclamar. Sérião.
Passaram-se alguns minutos sem o menor barulho lá fora. Tive uma idéia: Todo carro deve ter uma caixinha de ferramentas no porta-malas; como eu já estava acostumada com a falta de claridade ali dentro, não seria difícil dar uma visualizada no ambiente geral, mesmo que amarrada e em posição fetal. Se eu conseguisse localizar a caixa, tava feita.
Por incrível que pareça, percebi que a tampa era cerca de 30 cm. maior que a minha cabeça, o que me fez pensar na possibilidade de ficar sentada e ampliar meu campo de visão – já limitado – na tentativa de localizar alguma ferramenta ou utensílio perfuro-cortante. E o que eu nunca iria esperar, é que os bocabertas deixaram uma caixa de ferramentas ali, abaixo do carpet, onde fica o step. “Nunca mais vou ter sorte igual a essa na vida”- pensei comigo. Mas, como iria fazer pra abrir essa caixa? Somente as pontinhas e os calcanhares dos meus pés atados podiam fazer alguma coisa, se ao menos a minha boca tivesse livre eu conseguiria abrir a caixa...
Nesse instante ouvi passos ao lado do carro. Se aproximavam com rapidez, como se estivessem com pressa. Aguardei, com os olhos mais arregalados do que os do tio Chico.


tenso!

Ouvi o barulho de alguma coisa na fechadura do porta-malas. Pelos movimentos, quem quer que estivesse do outro lado estava tendo dificuldades em acertar a chave no buraco, face a demora em abrir o negócio. Pela lógica, se não era a chave certa, só podia ser uma chave mixa, daquelas que abrem todas as fechaduras. E se meu raciocínio estivesse certo, era alguém tentando me ajudar a escapar dali. O que eu pensei? “VAI LOGO!”
Dito e feito. Assim que o porta-malas foi aberto, vagarosamente, estreitei meus olhos para ver salvador da minha pátria (ou não). Para minha surpresa, não havia claridade, já estava anoitecendo. Igualmente fiquei surpresa quando vi o Jean, branco igual uma vela, gesticulando pra eu ficar quieta. Obedeci sem pestanejar.
Ele estava com um estilete na mão, o que me deixou umas 350 vezes mais aliviada. Fiz um gesto pra ele desamarrar minha boca, mas o desgraçado simplesmente disse:
- Nã-nã-nã, guenta aí até eu te tirar daqui.
Nem preciso dizer que fiquei puta né? Mas em todo caso, eu só queria sair ilesa dali, mesmo que com a boca grudada com fita isolante.
Jean me pegou no colo e saiu correndo em direção a uma ambulância, estacionada do outro lado da rua. Assim que saí do porta-malas tentei me localizar, mas o que vi foi apenas mato e uma casinha de madeira na direção oposta a que estávamos correndo. Os bandidinhos bocabertas com certeza estavam lá dentro. Quando Jean abriu a porta e me colocou lá dentro da ambulância eu logo fiz uma cara de espanto e olhei ao redor, tentando buscar uma explicação pra ele estar dirigindo AQUILO. Enquanto ligava o veículo e arrancava, desatou a falar.
- Antes de qualquer coisa, sim, isso é uma ambulância mesmo. Sim, eu roubei. E sim, eu segui esses caras até aqui. Eu estava dobrando a esquina do hospital quando vi você sendo carregada por dois deles. Eu não sabia o que fazer, eles não estavam me vendo, e se eu fosse até lá ia acabar como tu. Não pensei duas vezes e entrei no estacionamento da emergência e saí com o primeiro carro que vi. Tu não deve saber disso, mas sou viciado em filmes e séries policiais. Não sei o que me deu, mas baixou o Mcgyver em mim e eu os segui. Quando eles perceberem que tu fugiu vão ficar danados. HAHAHA!


deixa pra mim que eu resolvo.

Tipo, ele tava gargalhando. Como eu não podia falar nada, meus pensamentos falavam por mim: “pirou ou tá chapado”.
- Já que você não vai falar nada - continuou -, já digo de antemão que não precisa agradecer, tá?
Revirei os olhos e me virei para a janela. Só queria ir embora.
Passaram-se 40 minutos sem que ninguém dissesse uma palavra; eu por estar ainda impossibilitada, e ele por aparentemente não ter nada a dizer sobre o acontecido. Tentei imaginar por quanto tempo eu teria ficado desacordada. Nós estávamos em outra cidade, com toda certeza, devido à demora pra chegar ao destino... meio que adivinhando, Jean perguntou-me:
- Ainda temos um trecho pra percorrer, vamos parar pra comer? Eu te desamarro.
Assenti com a cabeça. Meu estômago já estava fazendo um buraco entre as minhas costelas, e já não era sem tempo de me deixar livre dos pés e mãos atadas.
Paramos em um posto de gasolina aparentemente fantasma em um trecho de estrada de chão. Jean me desamarrou com cuidado, perguntando se estava tudo bem e me olhando com ternura. Funguei e retribuí um “sim” sussurrado.
Entramos na loja de conveniências do posto, onde havia uma mesinha vazia, perto dos refrigerados. Sentamo-nos e pedimos 2 cafés simples e pães de queijo. Enquanto aguardávamos, me senti inquieta, olhava pra todos os lados, morrendo de medo dos caras terem seguido a gente. Eu sentia que o Jean também estava apreensivo, mas tentava disfarçar. Comemos em silêncio, cada um com seus milhões de neurônios trabalhando simultaneamente e sem chegar a qualquer conclusão. Após terminarmos o lanche rápido e irmos ao banheiro, voltamos à ambulância. Hora de quebrar o silêncio.
- Jean, antes de tu ligar o carro, precisamos conversar – eu disse, encarando-o nos olhos e mordendo os lábios, vacilante.
- Tudo bem, manda. – disse ele, também me encarando, com seriedade.
- Antes de tudo, me desculpa ter te mandado embora lá de casa aquele dia. Eu me precipitei, estava com mil coisas na cabeça e não queria me envolver nos teus problemas. Tenho pensado bastante sobre isso e ...
- Relaxa, já passou.  – ele me interrompeu – Eu não costumo guardar rancor nem mágoa, principalmente de ti, Anne. Eis o motivo pelo qual estou aqui te resgatando. – riu.
- Jean, eu tô com medo. Na verdade, eu tô apavorada. Você se arriscou por mim, pela sei lá, segunda ou terceira vez na tua vida, e eu nunca te retribuí ou agradeci à altura. Sempre ligo o foda-se pra tudo, mas não tenho consciência do que to fazendo. Hoje eu tive a prova que eu precisava pra me tocar que a vida não é assim. Que não vale a pena julgar sem conhecer o verdadeiro caráter de alguém, ou se vingar de uma pessoa que te prejudicou de alguma forma. Posso estar viajando na maionese te falando isso, mas eu precisava te dizer que me arrependo de tudo que fiz pra ti, desde o dia em que nunca mais te vi. Você me desculpa? – as lágrimas vertiam no meu rosto sem eu nem ao menos enxugar. Precisava expulsar os demônios presentes na minha alma.
- Ei, não chora. Eu não me arrependo de nada que fiz por você até hoje. Hoje eu tive a prova que precisava pra me convencer de que eu preciso cuidar de você, como diz aquela música: “todo dia, toda hora e a todo o momento”. Apesar das cagadas que eu andei fazendo, eu faria tudo de novo só pra te ouvir dizer essas coisas pra mim agora. A partir de agora, mesmo que você não queira, eu vou estar contigo. Vou abrir a porta do carro pra você entrar, vou parar o trânsito pra você poder atravessar a rua. Quando você olhar aquelas horas iguais no relógio, sou eu que vou estar pensando em você. Vou te ligar às 8 da manhã de um domingo pra te desejar bom dia e te falar que você é a mulher da minha vida. E tu não me deve nenhuma desculpa, guria.


malditas horas iguais! (ou não...)

Ele disse tudo aquilo olhando fundo nos meus olhos lacrimejantes. Afagou meus cabelos. Acariciei os dele e ambos sorrimos. Nada mais precisava ser dito.

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